Caminho Longo nosso de cada dia

Capa bonita, capa formosa. Foto roubada lá do site da Editora Pendragon

O post de hoje é uma resenha, dessas que eu faço num suspiro só, e falo o que tem dentro da minha caixola.

Escrita numa segunda-feira fria de agosto, no meio de uma pandemia e de uma dor de tudo, a resenha é assim:

”Faz dois dias que, junto dos personagens de Vinicius Fernandes, percorri o Caminho Longo. Dois dias. E a ressaca que as palavras trazem ainda não passou. Ainda me sinto tonta e tomada por uma overdose de sentimentos conflitantes.

Ler esse drama não foi como abrir as páginas de um livro e desbravar seus capítulos. Foi mais como me sentar confortavelmente num café, no centro da cidade, e encontrar um amigo de longa data. Foi como ouvir, por horas que passaram desapercebidas, suas histórias.

Caminho Longo não foi nem uma narrativa que eu li. Foi uma coleção de memórias que alguém especial escolheu compartilhar comigo. Foi um segredo que me confiaram. Foi um riso contagiante. Foi um choro silencioso.

As três partes do livro tratam da inocência e da descoberta, da perda e do luto, do futuro e seus desafios. Com personagens incomodamente reais, circunstâncias comuns e preconceitos conhecidos, Caminho Longo se torna muito mais que um drama LGBT.

É uma história sobre família.

É uma história sobre amadurecimento.

É uma história sobre confiança e respeito.

Sobre trauma.

Sobre mágoa.

Sobre perdão.

A cada vez que eu abria o livro me via sendo tragada por algo mais forte que eu; efeito que só grandes autores, que tem grandes histórias pra contar, são capazes de obter. Você não imaginaria isso apenas lendo a sinopse na capa.

Aí descansa o segredo: nem toda grande história é inesperada, surreal. Caminho Longo é um livro fantástico exatamente por contar uma história real, alcançável. Uma história com a qual você se depara no corredor na escola, na fila do cinema, na recepção do hospital.

São páginas rápidas de ler mas difíceis de digerir: nos vemos nelas. Nos reconhecemos em cada personagem. Nos alegramos com seus triunfos, sentimos seus tombos e, graças a má sorte do protagonista, sentimos a exaustão de quem não tem um dia de folga nos perrengues. 

Não é um livro confortável. Não é leitura de ponto de ônibus. É coisa séria, daquelas que te desarrumam por dentro e até irritam. O livro tem essa verossimilhança: a dor crua, como ela é. A confusão, o medo. Tudo que a gente sente mas não quer falar sobre.

Livro feito porrada, afundou no meu estômago. Não é desses em que eu fiquei marcando frases… as falas eram, por vezes, como socos. A gente nem se prepara; só se deixa acertar. E segue em frente. Pro próximo conflito, pro próximo capítulo.

Não teve violência gratuita, não teve clichê. Teve foi a zombaria do universo, que não dá tempo das feridas se curarem, antes de outras se abrirem. A vida de todo mundo é assim. A literatura também.

Quando terminei de ler, fechei as páginas e deixei de lado aquele final agridoce. Olhei pro teto e suspirei. Caminho Longo foi como ouvir as histórias de um velho amigo. Foi sorrir e até chorar. Foi ter aperto no peito e então alivio. O café esfriou em cima da mesa.

O livro chega ao fim e a gente se despede. Não fica saudade porque não ficaram pontas soltas. O autor foi meticuloso ao inserir cada palavra naquelas páginas. Detalhista, Vinicius Fernandes não deixou dúvidas.

“Tudo está bem quando termina bem”

Mas esse livro não é sobre o ponto final. É sobre o ponto vírgula. Não é uma história pra nos apegarmos ao final. É uma história pra lembrarmos do Caminho Longo.

Segredo que vou deixar aqui no blog é que esse livro foi comprado lá na Bienal do Livro, aquela em que rolou tentativa de censura, sabe? Que bom que eu cheguei lá antes de acabar o Kit Gay! ❤

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