A Queda dos Nove e a Queda das minhas Lágrimas

Foto, como de costume, roubada do site da Editora Pendragon ❤

Ano passado, uma pandemia e uma vida atrás, li um livro magnifico desses que faz a gente se sentir carente de mais. Desses que a gente quer que todo mundo leia. Desses.

Ano passado, em setembro, escrevi assim:

“Foi preciso deixar o tempo passar e as lágrimas secarem pra conseguir voltar a falar desse livro. Se durante a leitura me encontrei angustiada e sem saber o que esperar, agora sou a calmaria que vem depois de uma tempestade e espero do autor nada além de grandeza nos próximos trabalhos. Me sinto hoje na obrigação de recomendar A Queda dos Nove a todos os leitores que conheci e que virei a conhecer.

De longe um dos livros mais brutais que já li, essa distopia nacional é capaz de abalar mesmo o leitor mais insensível. Seu efeito em alguém mais empático é então, catártico. Mas não é sobre catarse que venho falar. É sobre necessidade. Termo que, pra mim, resume bem o contar da história de Ed, Roger, Carlos e Suzanna. Precisamos, hoje mais do que nunca, falar sobre governos totalitários. Precisamos acima de tudo, lutar contra eles. A queda dos nove explícita o porque.

A Nova Era se aproxima (ou melhor, reaproxima) cada vez mais de nós. É preciso revidar com tudo que temos e a literatura é uma arma poderosíssima de reação. O autor L. Matheus denuncia na sua obra nosso passado sem deixar de alertar para nosso futuro. Se não queremos viver a realidade tanto de Ed quanto de Roger é melhor abrirmos os olhos pra história do nosso Brasil. Não tão diferente da história do país fictício cenário do livro. Gostaria de manter essa resenha livre de todo contexto político vivido, mas a verdade é que tudo que fazemos é política (inclusive o ato de nos omitirmos quando a justiça precisa de nós).

O autor aqui não se omite, se posiciona. Deixa claro seu repúdio às ditaduras, nossas e outras. E é isso que precisamos fazer cada vez mais. Nos posicionar. Ler livros como A queda dos nove; livros incômodos que resultam no notar verdades inconvenientes. A injustiça de governantes que se privilegiam cada vez mais, abusando dos pobres que não tem como se defender contra a revolta das periferias, privadas de tanto, é no livro retomada de forma crua, sem floreios. As relações humanas levadas a seu limite também é tema, assim como o limite (ou inexistência dele) para a covardia e crueldade alheias. Todos esses tópicos permeiam as cenas fortes do livro, que não falham em impactar o leitor por mais experiente que este seja.

Em muitos momentos fui obrigada a chorar um choro doído, permeado de história. A minha. A dos meus antepassados. A nossa. Não é um livro fácil. É um livro real. E é disso que precisamos. De realidade. Por mais dura que ela seja, por mais incomoda, por mais cruel. O livro tem sim cenas de tortura, nenhuma gratuita. Caso você pense o contrário talvez convenha procurar livros de história. Talvez convenha frequentar as aulas que as ruas do nosso país oferecem. Talvez convenha entender que, governam totalitários usufruem de tortura e torturam sim inocentes. Ditaduras assassinam crianças e se isso te incomoda, ótimo. É pra incomodar mesmo. A Queda dos Nove não é um livro fácil ou gostoso de ler, é necessário. É necessário inclusive para o leitor que se considera alerta, desperto e desconstruído. Todos temos que ler livros assim.

Mas se não te convenci até agora usando do argumento “necessidade” que venha então o argumento seguinte: os personagens cativam. Todos eles. São extremamente completos, bem construídos (e desconstruídos quando necessário) e cativantes. Reais, acima de tudo. Do início ao fim existe coerência na escrita de cada um deles, o que é fascinante e prazeroso para o leitor mais experiente e satisfatório para um leitor que começa agora sua jornada. Dentro da história contada, cada personagem tem sua função (inclusive os personagens secundários) e nenhum deles é raso. Em A Queda dos Nove não existe preto no branco, existe o cinza. O que é ainda mais assustador. É fácil odiar um vilão animalesco, surreal e monstruoso. Esse não é o caso. Aqui você odeia vilões bem mais assustadores: vilões extremamente humanos, acinzentados. Vilões como os que existem na história da humanidade.

Não sei mais dizer ao certo se o que escrevo é uma resenha, uma recomendação ou uma carta de amor e entusiasmo endereçada ao autor, que magistralmente, conta não uma, não quatro, mas incontáveis histórias dentro de um mesmo livro, todas igual e incrivelmente propulsoras e convidativas a ação. Sei apenas que escrevi o que sentia a necessidade de escrever. De tirar do peito. Talvez de gritar. Hora um grito de dor e perda, como o de Roger; hora um grito sofrido e cheio de devoção, como o de Suzanna; hora um grito de amor, como o de Carlos ou mesmo um grito silenciado, como o de Ed.

Li, leria e estou lendo de novo. Se isso te vale de algo não sei, mas mim vale o mundo ou que vai restar dele.”

Bom pessoal, é isso. Meu eu de um ano atrás estava muito doído após a leitura recente. Lhes digo que, um ano depois, sigo bem sentida. O autor arrasou demais. Arrasou comigo, inclusive.

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